sexta-feira, 21 de março de 2008

. Andrei .

Era quase meia noite, mas a luz do escritório de Andrei ignorava o horário. Preciso terminar esta droga de relatório, pensou Andrei, enquanto caminhava à máquina de café, amiga fiel e companheira dos seus momentos mais solitários.
Fazia um vento frio que vez ou outra, entrava de assalto e fazia os pápeis dançarem estranhamente, sobrevoando a cabeça do já cansado funcionário. Que se dane, vou me embora. Calçou as botas, se meteu num agasalho gasto e se lançou ao corredor, repleto de luzes frias e de um silêncio quase constrangedor. Elevador quebrado, droga de edifício velho, de modo que teve que descer as escadas, cerca de dez andares. Toc. Toc. Toc. Tocavam as botas velhas de Andrei, já impaciente em chegar logo à rua.
Fazia frio e a rua estava quase deserta. Havia um táxi na esquina e algumas prostitutas, à espera do gozo que se verte em dinheiro, mas Andrei prefiriu caminhar e há muito não sabia o que era o corpo de uma mulher. Não fazia muito, cerca de uns meses, sua mulher o largou para ficar com o Raul, algun anos a menos e algumas cifras a mais. Cest la vie.
E foi caminhando. Caminhando. Até o momento em que foi inesperadamente agarrado por uma mão. Silêncio. É agora, vou morrer. Fique quieto. Me dá seu sexo. Han? Me dá seu sexo imbecil.
Pela textura das mãos, não havia dúvida: era uma mulher, ofegante, que procurava deseperadamente o membro em repouso de Andrei. Abriu as calças e meteu-lhe a mão. E beijou o membro deliciosamente, demoradamente, ele estava prestes a explodir. Ainda não, disse ela. Eu quero te comer. Sádica e selvagem a misteriosa fêmea noturna.
Abriu as pernas e se fez penetrar por Andrei. E ela gemia, e se agarrava na parede e falava uma língua incompreensível. Andrei, atônito, nada entendia. Mas sentiu as mãos quentes da moça, sua língua macia, seu perfume de mulher, o seu sexo úmido. Queria ver aquela mulher, mas não havia luz. Era tudo escuro.
Quando tudo se deu por terminado, a fêmea disse: agora vá. Cruel e impiedosa, saiu pelo beco escuro deixando Andrei lá, jogado no canto e sem compreender quem era aquela mulher que havia lhe devolvido a vida.
Se ajeitou, pegou o casaco que foi arremessado num canto e se pôs a caminhar de volta para casa, pensando em dar mais horas extras e de como a madrugada tinha um bom ar. Ah, como ele adorava a noite!
Enquanto isso, na esquina seguinte, uma moça acabava de entrar num táxi. Era Irina, e seus olhos estavam cheios de água. Irina acabara de fazer sexo com um estranho e tinha os olhos carregados de melancolia.
Irina, a fêmea cruel. Irina agora chora.

*

A continuar.

Um comentário:

e.m. disse...

confesso que ao terminar de ler esse conto fiquei a imaginar a cena por alguns minutos. talvez o tempo que se passou a cena entre os dois.

abs.