sexta-feira, 29 de maio de 2009

Os abraços servem para quando tudo se acaba e não se quer que acabe. Os abraços servem para comemorar os dias de alegria, aqueles abraços onde a pessoa lhe tira um pouco os pés do chão.
Os abraços, sempre os abraços, de corpo apertado, de peitos colados, às vezes dilacerados, servem à dor, servem à felicidade. Os abraços cabem até num livro.

Os abraços atestam as distâncias e encerram as saudades. Os abraços firmam os encontros e cabem nos tamanhos de todos os braços.

E existem pessoas que não cabem nos abraços.

Elas são o abraço.

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terça-feira, 12 de maio de 2009

Abandonei as coisas velhas, larguei as roupas antigas. As fotos estão todas numa caixa, escondida no fundo do baú que herdei da minha avó, onde também tentei me esconder. Não cabia, eu não cabia ali.
Pisei em todas as lembranças com os pés calçados numa bota imunda, suja dos lugares por onde tentei fugir de tudo que me lembrava alguma coisa que um dia senti.

(Na parede de uma casa, um relógio me avisa que o tempo passa).

Quando já havia me desfeito de tudo, corri para dentro de mim, para escapar dos sons e dos cheiros que me levavam de volta ao que eu não queria. Tentei, tentei, mas eu também não cabia mais ali.

(Debaixo da terra, habitam corpos abandonados).

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sábado, 25 de abril de 2009

.2009.

Eu quase deixei esse blog de lado, quase me esqueci o quanto é bom escrever, e quase não percebi, por um quase instante, o tanto que eu mudei.

Quase.

Eu quase fui advogada, quase fui antropóloga e quase não me tornei fotógrafa.

Quase.

Eu quase fiquei na fossa, eu quase perdi a vida, eu quase deixei de acreditar no amor.

A vida é por um triz.

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terça-feira, 23 de setembro de 2008

Aproveitando o embalo...

A primavera chegou. Aqui em Salvador, onde as árvores dão mais frutos do que flores, só percebe quem é mais atento. Eu, por exemplo, me dei conta de que o centro estava todo coberto de folhas. Os cantinhos das ruas estavam cheios de folhas amarelinhas. Soprava um vento e elas voavam, ou caíam em cima das pessoas que cruzavam o caminho. Uma beleza!

Eu, que tenho andando com minha câmera compacta e analógica, tenho fotografado muito o movimento do centro. As miudezas, os pequenos acontecimentos. Na primavera, isto é ótimo de se buscar. Não é como no verão, onde tudo fica escancarado, exposto. Agora é tudo sutil, o sol brilha forte, mas não queima tanto. Os dias são mais frescos, e há uma luz tão bonita nas manhãs! E sim, há algumas árvores que dão flores (tem um pé de jambo na Ufba, um flamboyant vermelho aqui na rua e uma árvore em frente à praça Castro Alves, que quando florida, é uma das coisas mais bonitas de se ver por aqui).
Ah, como eu adoro a primavera!

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Só quem esteve na frente de um analista sabe o quanto é difícil. Tudo é difícil, inclusive achar um(a) que combine com você. É mais difícil do que achar namorado. Não basta o analista ser bonito, falar bem e lhe dar lencinhos para enxugar as lágrimas. Tem que haver uma espécie de química, se é que vocês me entendem.

Já passei por vários tipos. Comecei com uma terapeuta, que me mandava esmurrar almofadas. Me sentia ridícula. Psicodrama Mariana, me disse um tempo depois um amigo psicólogo. Drama demais para mim. Outra tentativa: consultório muito escuro. Não gostei da cor do cabelo dela. Mais uma: psicoterapia. Dessa vez, não precisei esmurrar almofadas, mas tinha que escutar ruídos esquisitos num fone (tipo tum tum tum tum). Ele: e aí, o que você sentiu? Eu: han? Não foi dessa vez.
Outra tentativa, desta vez, análise (Freud e coisa e tal). Que azar, o analista era meu conhecido! Deixei de lado e esqueci dessa história de me analisar, divã, murros em almofadas e ruídos non sense.

No entanto, há mais ou menos um mês e pouco, voltei a tentar. E dessa vez, funcionou! Encontrei uma analista perfeita: bonita, cor de cabelo aceitável e uma voz muito interessante. Gosto de ir conversar com ela, devo adimitir que estou até um tanto viciada. Mas, como todo namoro, a análise, nos primeiros dias é uma maravilha! Depois é que entra a famosa Dr, os complexos, os conflitos que nem você mesmo sabia. Saí de lá, algumas vezes, me sentindo uma mosca diminuta. Uma gota. Um ser muito pequeno. E, ao contrário do namorado, não há beijinhos para sarar. Muito sarcástica, a minha analista bonitona me disse: peguei pesado com você hoje, hein? Sim, pegou. Pensei até em não voltar. Mas na semana seguinte, ó eu lá de novo: e aí Mariana, o que você me conta hoje? E eu, que sempre vou com um texto pronto, me esqueço tudo na hora e literalmente, improviso a minha própria vida. Fascinante.
Estou gostando da experiência. Não penso em parar tão cedo. Se alguém aí tiver uma experiência com analistas, psicoterapeutas e afins, compartilhe comigo (e me empresta um livro do Freud!)!

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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Há certas mágoas que não se curam. Há certos desejos que não se apagam. Também há certos amores que nunca se esquece e músicas que sempre serão ouvidas.
Há poesias que jamais deixarão de ser lidas, há proibições que frequentemente serão transgredidas e há pessoas que nunca serão entendidas.
Há amigos que não serão esquecidos, há lugares que nunca foram vistos e também há os precipícios.
Há o passageiro que nunca saberei o nome, há aquilo que me arrependerei, e também os dias em que eu amei.
Há a solidão, há a multidão e mais importante, há o dia em que não quero ser nada.
Há o tudo, e porém.

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quinta-feira, 3 de julho de 2008

Fui chamada, há uns dias atrás, para fotografar um parto. Ia ser em casa e na água. Imaginem a minha excitação, ver um bebê chegar ao mundo, do modo in natura, e além disso, eternizar o momento exato em que despertará do lado de cá. Emoção geral.
Pois bem. Conheci o casal naquele mesmo dia. Me surpreendi com tudo: eles eram de uma tranquilidade imensa, eu, longe de estar grávida, estava mais ansiosa do que os dois. Tudo estava lindo e preparado para chegada do bebê, que eles, contrariando todas as modernidades, não sabiam o sexo. A casa cheirava a um incenso bom, uma música suave tocava e a futura mamãe, de uma beleza pura, se preparava para o momento.
Aprendi muito naquela noite. Mais do que eles possam imaginar. Aprendi que algumas dores são necessárias, há que se passar por elas. Aprendi que amor bom é amor compartilhado, doado e dividido. Aprendi que não podemos controlar o fluxo da vida, algo do tipo não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar. A vida é líquida! O tempo é mesmo uma criação do homem: a natureza segue um outro fluxo, muito mais sutil e tão mais bonito!
Acabou que pelos revezes da vida, o parto não pôde ser na água. Mas a criança nasceu. Linda, uma menina, que ganhou o nome mais lindo, inspirado, vejam só pelo Guimarães Rosa: Cora. A menina coração.
Linda, vermelha e viva, pronta para pulsar no mundo.


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